Tudo
ao redor conspirava harmonicamente a favor da situação. A luz havia se reduzido
a um tom de cinza robusto e sutil. Pela pequena abertura na janela de vidro
adentrava um vento gelado e apaixonante. Uma das extremidades da cortina
movia-se vagarosamente como quem dança uma música romântica. O sol já havia
enviado alguns sinais cautelosos para anunciar sua vinda magistral. Ao longe
ouvia-se o barulho inquietante da cidade que parecia não dormir nunca. E nessas
condições os dois se encontravam ali, deitados e acordados numa estreita cama
de solteiro, com os pés roscando um no outro e num abraço permeado que mais os
deixava parecendo um só.
Só
trazendo as mãos dele mais próximas ao seu rosto é que ela pôde sentir o cheiro
de tarde ensolarada que a pele dele exalava. Intrigantemente ela não pôde
conter a risada ao sentir aquele cheiro tão próprio dele, o que levou ele, com
os olhos entreabertos e com a voz rouca, a perguntar se ela havia sentido algum
cheiro engraçado. Ela riu de novo. Uns segundos depois voltou a cabeça em
direção a dele e disse que não, que não havia sentido nenhum cheiro engraçado,
mas acrescentou que o cheiro dele simplesmente a deixava feliz e era a
felicidade que a fazia dar risada. Ele sorriu e apertou ainda mais o abraço.
De
fundo tocava algum vinil velho do Cazuza, bem baixinho... Continuaram deitados.
O sol que entrava pela janela deixava cor de mel os olhos dela que antes eram
apenas castanho escuro. Agora os dedos de uma das mãos dele conversavam
intimamente com os fios pretos do cabelo dela. Com o outro braço ele ainda a abraçava.
E naquela posição, com o braço envolto dela, ele parecia criar uma barreira
protetora e indestrutível que desafiava qualquer coisa ruim que pudesse se
aproximar. E dessa situação nós podíamos descobrir tantas coisas deles que
seria pecado não notar a mais bonita: que ela gostava de se sentir segura e que
ele gostava de protegê-la.
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