28 de out. de 2013

187 segundos do que for

Tudo ao redor conspirava harmonicamente a favor da situação. A luz havia se reduzido a um tom de cinza robusto e sutil. Pela pequena abertura na janela de vidro adentrava um vento gelado e apaixonante. Uma das extremidades da cortina movia-se vagarosamente como quem dança uma música romântica. O sol já havia enviado alguns sinais cautelosos para anunciar sua vinda magistral. Ao longe ouvia-se o barulho inquietante da cidade que parecia não dormir nunca. E nessas condições os dois se encontravam ali, deitados e acordados numa estreita cama de solteiro, com os pés roscando um no outro e num abraço permeado que mais os deixava parecendo um só.
Só trazendo as mãos dele mais próximas ao seu rosto é que ela pôde sentir o cheiro de tarde ensolarada que a pele dele exalava.  Intrigantemente ela não pôde conter a risada ao sentir aquele cheiro tão próprio dele, o que levou ele, com os olhos entreabertos e com a voz rouca, a perguntar se ela havia sentido algum cheiro engraçado.  Ela riu de novo. Uns segundos depois voltou a cabeça em direção a dele e disse que não, que não havia sentido nenhum cheiro engraçado, mas acrescentou que o cheiro dele simplesmente a deixava feliz e era a felicidade que a fazia dar risada. Ele sorriu e apertou ainda mais o abraço.

De fundo tocava algum vinil velho do Cazuza, bem baixinho... Continuaram deitados. O sol que entrava pela janela deixava cor de mel os olhos dela que antes eram apenas castanho escuro. Agora os dedos de uma das mãos dele conversavam intimamente com os fios pretos do cabelo dela. Com o outro braço ele ainda a abraçava. E naquela posição, com o braço envolto dela, ele parecia criar uma barreira protetora e indestrutível que desafiava qualquer coisa ruim que pudesse se aproximar. E dessa situação nós podíamos descobrir tantas coisas deles que seria pecado não notar a mais bonita: que ela gostava de se sentir segura e que ele gostava de protegê-la. 

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