Seu coração batia tão alto quanto se podia ouvir. De fundo um vento gelado e um céu cinzento. Ali, no alto do penhasco, pensava de queixo erguido que estava onde devia estar. Não se arrependia, nem por segundos, da decisão que tomara há um tempo. Era mesmo hora de findar a vida.
Queria tornar aquele momento o menos dramático possível. Do vício em coisas tirou uma hipótese: a vida é como um jogo qualquer e quando você se cansa não tem problema desligar o vídeo game e induzir o game over. Era nisso que queria acreditar antes de se jogar lá de cima. Mas, bem no fundo, queria mesmo era ter motivos suficientes para fazê-la desistir de tudo aquilo e continuar jogando. E, se procurasse bem, encontraria os tais motivos.
Nas mãos trêmulas segurava os pedaços de um papel repicado. Abriu as duas mãos, de forma que os pedaços saíram flutuando lentamente, levados pelo vento feroz. Se juntássemos cada pequeno pedaço daquele papel repicado, veríamos uma foto com várias pessoas sorrindo em um lugar bonito. Os familiares e amigos que, pensava ela, a acompanhariam naquela viagem ao chão, de encontro com a morte.
Olhou a paisagem lá de cima, respirou bem fundo e sentiu um embrulho no estômago. Fechou os olhos lentamente e abriu os braços, para se entregar oficialmente à natureza. Inevitavelmente viu o filme da sua vida inteira passar pela sua mente. As lágrimas, os sorrisos, os motivos para que estivesse fazendo aquilo, os motivos para que desistisse de fazer aquilo e todo o resto... Mas, ainda de olhos fechados e braços abertos, foi caminhando, em uns passos inseguros, até o limite do penhasco.
Chegava a hora de finalmente se jogar na incerteza da morte. Onde chegaria, quão doloroso seria? Só obteria essas respostas se terminasse aquilo. E o fez. Se jogou como uma bigorna que tenta encontrar o chão. Mas, para seu espanto, criou asas como um pássaro e aprendeu a voar.
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